1978/1980

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Fui à festa de aniversário de Alfredo Volpi, tio da esposa de um primo meu. O artista fazia 80 anos e continuava jovem como sua pintura, que evoluiu do figurativo para o abstrato, e agora operava uma síntese do figurativo e do abstrato: pintando fachadas, bandeiras ou mastros, Volpi isolava os objetos de seu contexto e os depurava por efeitos de cores e sombras, em fundos ora ásperos e secos, ora doces e aveludados. Eram, ao mesmo tempo, bandeiras e composições, mastros e geometria, fachadas e tâches. O governador Paulo Egídio almoçou naquele dia com o pintor. A certa altura, tirou uma fotografia do bolso e pediu-lhe uma dedicatória. Com a caneta na mão, Volpi voltou-se para o governador e perguntou: “Mas qual é o seu nome, meu filho?”

Creio que foi no Teatro Anchieta que vi três sensacionais montagens de Antunes Filho: Macunaíma, A falecida e Os sete gatinhos.

Vi e revi e tornei a ver no Teatro Municipal apresentações extraordinárias de Teatro Nô*: Tsunemassa, sobre o heroísmo de um guerreiro; e Hagoromo, sobre a descoberta, por um pescador, de um manto de plumas pertencente a uma deusa, e a ela devolvido após a execução de uma dança.

*Derivado do Sarugaku, forma popular de entretenimento, o Nô foi criado no século XIV por Kan’ami e seu filho Ze’ami, que escreveram quase um terço do repertório Nô existente: 240 peças, divididas em cinco grupos: (1) peças introdutórias, que descrevem deidades em histórias de regozijo; (2) peças de batalha, que descrevem guerreiros famosos em histórias de sofrimento; (3) peças femininas, sobre mulheres jovens e belas em atmosfera gentil; (4) peças variadas, com mulheres loucas ou obcecadas ou dementes do sexo masculino; (5) peças conclusivas, que descrevem seres sobrenaturais, encenadas em ritmo rápido.

Sonhos que tive:

(1) Fui ao médico. Ao cabo da consulta, ele me diz, sorrindo: “Você tem três dias de vida.” Saio do consultório em estado de aflição. Chego ao meu quarto aos prantos. Agarro D. Quixote e Guerra e Paz, clássicos que ainda não li, para tentar não morrer sem tê-los lido. Mas eu sabia de antemão que não conseguiria fazê-lo em três dias e por isso chorava. Ao mesmo tempo, davam-me esperanças de que o médico estava brincando comigo, pois dissera aquilo sorrindo. Mas esse consolo tornava as coisas piores: não sabendo ao certo se eu morreria ou não dentro de três dias, já não me angustiava tanto a tentativa insana de ler de um fôlego as obras de Cervantes e Tolstoi. Mas se morresse, a relativa tranquilidade adquirida apenas atrasava ainda mais aquela leitura vital. Tanto mais me afligia a dúvida quanto temia perguntar ao médico se era verdade, porque sua resposta seria então o fim da minha última esperança e eu poderia, desiludido, morrer ainda mais depressa. Não pude suportar tanta tensão e acordei.

(2) Minha casa é invadida por larvas que se transformam em baratas pequeninas, de casca preta e dura, indestrutíveis. Elas se multiplicam de modo extremamente rápido e grudam em nossa pele de modo que não podemos fazer nada contra elas. Eu tinha muitas irmãs neste sonho e duas delas eram negras. Mas eu não sabia o nome delas e quando pedi a Marilena que me ajudasse, ela se zangou e se negou a buscar o álcool com o qual eu pretendia queimar as baratas, porque na verdade ela se chamava Sandra. Pedi desculpas e dei um beijo em seu rosto. Ela me perdoou e, contente, trouxe-me o álcool. Logo depois acordei.

(3) Após o ataque dos palestinos que resultou em 20 mortos e desencadeou um violento contra-ataque israelense, vou para Israel com Dona Bella: encontramos o país em ruínas e despovoado. Ela não conseguia entender o que acontecera, mas eu sabia: os EUA haviam jogado ali uma bomba de nêutrons, o que explicava a ausência de cadáveres (na realidade, o efeito da bomba seria exatamente o contrário). Dona Bella chorava e eu tentava explicar que a culpa disso era dos americanos.

Vi no cinema o Jesus de Nazaré, de Franco Zeffireli. O cardeal D. Paulo Evaristo Arns sentou atrás de mim. Sem o menor escrúpulo, pedi-lhe um autógrafo. Seu “p” tinha a forma recherchée de um coração.

Li contos de Lu Shin. De um deles: “Não se pode dizer que a esperança exista, como tampouco se poderá dizer que não exista. É como os caminhos que cruzam a terra. Porque, em verdade, no princípio a terra não tem caminhos, mas quando muitos homens caminham na mesma direção, surge o caminho.”.

Li Revolução e contrarrevolução de Leon Trotsky: seu estilo me enjoou.

Encontrei, numa folha solta, um rabisco de meu pai: “O sonho é a semente da ação”. Ele acreditava nisto: sempre sonhou mais do que agiu.